«O pau vai torar»: Boulos, a Praça Roosevelt e o recado pro governo Flávio que ainda nem começou
Enquanto a militância debate estratégia de campanha pros próximos 15 dias, outro movimento corre em paralelo, com um objetivo diferente: não ganhar o voto de quem ainda decide, mas deixar um recado pra quem pode vencer. Nesta quinta, Guilherme Boulos convocou ato na Praça Roosevelt, em São Paulo, às 18h30 — um entre vários que se repetem quase diariamente pelo país.
A leitura que surgiu no Rolê sobre essa convocação específica é mais interessante do que a mobilização em si: segundo os apresentadores, o objetivo não é só eleitoral. É um ato de intimidação simbólica antecipada contra um eventual governo Flávio Bolsonaro — a ideia de que, independente de quem vença, a rua já está mostrando que não vai aceitar passivamente retrocesso em direitos. «O pau vai torar se você quiser avançar demais», resumiu um dos apresentadores.
Esse tipo de mobilização cumpre três funções que não se excluem. A primeira é eleitoral de fato: ato de rua filmado e cortado em vídeo curto ainda funciona como prova social, sobretudo pra quem está em cima do muro e busca sinal de que «o lado dele está ganhando». A segunda é de organização interna: manter militância mobilizada todo dia, sem intervalo, é também um exercício de coesão que serve pra depois da eleição, ganhe quem ganhar. A terceira, mais explícita no discurso, é a intimidação declarada — um recado deliberado pra classe política, pra empresariado e pra imprensa de que determinados avanços não vão passar sem reação organizada nas ruas.
É essa terceira função que merece mais escrutínio. Transformar ato de rua em ameaça política pré-emptiva — «se você ganhar e tentar isso, nós vamos reagir» — é uma ferramenta legítima de pressão democrática em qualquer regime que respeite manifestação pública. Mas também é um terreno que pode escorregar pra lógica de deslegitimação prévia de um resultado eleitoral ainda não ocorrido, o que é um risco em qualquer direção política.
Rua que grita antes da eleição também está, goste-se ou não, ensaiando o tom de como vai reagir depois dela. Vale a pena prestar atenção não só no tamanho do ato, mas no que exatamente está sendo prometido pra depois do resultado.



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