O dia em que o Rolê trocou o amor pelo ódio (e por quê)
Na live desta quarta-feira, dia 7 de outubro, o programa Rolê abriu com uma confissão incomum: depois de meses apostando num tom mais propositivo, de convencimento pelo afeto, os apresentadores admitiram que a estratégia simplesmente não estava funcionando contra o eleitorado mais resistente. A resposta foi um recado direto ao público: hoje o programa seria sobre raiva, sobre cansaço acumulado, sobre a decisão consciente de parar de tentar convencer com carinho quem já demonstrou, repetidas vezes, que não quer ser convencido.
Não é um detalhe cosmético. É um indício de como a comunicação política de esquerda em canais de criadores de conteúdo está reagindo à sensação de que a campanha entrou numa fase de desgaste emocional mútuo. A ideia de que «o ódio vai vencer o ódio» soa como brincadeira de internet, mas carrega um diagnóstico sério: depois de uma sequência de ataques, ameaças e descrença generalizada, parte do público que apoia Lula não quer mais ouvir sobre diálogo — quer ver alguém validando o cansaço que sente.
O problema é que esse tipo de virada de tom é uma faca de dois gumes. Ela funciona como desabafo e fideliza quem já está convencido, mas dificilmente converte o eleitor indeciso, que é exatamente quem decide o segundo turno. Debate polarizado em cima de raiva tende a reforçar bolha, não a furá-la.
Ainda assim, há algo revelador em admitir o cansaço publicamente, ao vivo, sem filtro. A política brasileira dos últimos anos tem cobrado de militantes e comunicadores uma resiliência quase sobre-humana — cada ciclo eleitoral é tratado como existencial, cada debate como batalha final. Em algum momento, a performance de otimismo permanente também quebra.
Talvez o mais honesto desse episódio não tenha sido a proposta de combater ódio com ódio, mas o simples fato de dizer em voz alta que ninguém aguenta mais viver cada eleição como se fosse a última — mesmo sabendo que, no Brasil de 2026, qualquer uma pode ser.



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