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Por que o ato de domingo em São Paulo não vai ter um só palco

Por que o ato de domingo em São Paulo não vai ter um só palco

A nove dias da eleição, São Paulo vive uma logística delicada: em vez de um ato único e centralizado, os apoiadores de Lula espalharam a mobilização de domingo por pelo menos três frentes diferentes — um evento de rap na Zona Norte, atividades na Zona Leste e atos menores pela cidade, enquanto o Largo da Batata, na região oeste, segue reservado pela UNE sem confirmação de uso.

A decisão de descentralizar não é acidental. Relatos de bastidor da campanha indicam receio de que uma concentração única — especialmente numa região como a Faria Lima, cruzada pela mesma linha de metrô que liga à Avenida Paulista — produza um encontro acidental com manifestantes bolsonaristas na mesma área e no mesmo horário. O resultado, na pior hipótese, seria confronto registrado em vídeo e manchete fácil para o adversário.

Soma-se a isso um episódio ainda não esclarecido: um perfil chamado Movimento Revoluciona Brasil, criado em outubro de 2026 e com pouco mais de 200 publicações, chamou atenção de observadores por marcar e desmarcar um ato no Anhangabaú em sequência rápida — padrão que investigadores de desinformação costumam associar a contas de teste ou operações de infiltração. O jornalista Demétrio Vecchioli documentou o histórico do perfil, mas a autoria e a intenção por trás dele seguem sem confirmação pública.

A desconfiança com infiltração não é nova. Quem acompanhou as manifestações de 2013 lembra que parte dos episódios de vandalismo atribuídos a manifestantes foi, depois, associada à ação de policiais à paisana infiltrados nos protestos — um padrão que tende a se repetir sempre que um movimento de rua ganha escala e visibilidade suficiente para interessar a quem quer deslegitimá-lo.

Há também um debate estético em curso. Parte da militância quer vermelho nas ruas; outra parte argumenta que a cor afasta o eleitor de centro — o voto indeciso que a campanha precisa atrair para vencer no segundo turno — e defende verde-amarelo, ou uma combinação das duas cores, para evitar a leitura de que o ato é só da bolha.

No fim, a escolha por pulverizar os atos cumpre duas funções ao mesmo tempo: reduz o risco físico de confronto numa cidade dividida por uma única linha de metrô, e amplia a presença da campanha em territórios onde o voto ainda está em jogo, da periferia ao centro.

Um ato político de rua não é só manifestação de apoio — é também gestão de risco, de imagem e de geografia eleitoral. Descentralizar São Paulo neste domingo pode parecer fragmentação, mas é, na prática, a aposta de que presença distribuída rende mais votos, e menos manchetes ruins, do que um palco único e vistoso.

Comentário e análise política do Rolê — transformação em texto, com ângulo autoral, do que é discutido nas lives diárias do programa.

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