Fim do Centrão: o Congresso que vem é dividido em só dois times
Uma das análises mais estruturais trazidas pelo Rolê nesta quarta-feira foi sobre a composição do próximo Congresso. A leitura, atribuída a uma conversa com o cientista político Antônio Lavareda, é de que o parlamento está deixando de ser organizado em torno de um centro fisiológico — o tradicional Centrão, historicamente disposto a negociar apoio em troca de cargos e verba — para se polarizar em dois blocos ideológicos maiores: de um lado, uma ala mais identificada com pautas progressistas e liberais; de outro, um bloco mais radicalizado, com crescimento de parlamentares identificados como fascistas pelo próprio programa.
Se essa leitura se confirmar, a mudança é significativa para qualquer governo eleito em 2026, seja ele qual for. Um Centrão fraco tira do próximo presidente a possibilidade de negociar maioria através de barganha fisiológica clássica — distribuir ministérios e emendas em troca de votos pontuais. Governar fica mais difícil para todo mundo, porque a moeda de troca tradicional perde valor quando os blocos são ideológicos, não comerciais.
Por outro lado, um Congresso mais ideologicamente coeso também significa menos imprevisibilidade: os blocos tendem a votar de forma mais consistente com sua identidade, o que facilita a leitura do jogo político, mesmo que dificulte a formação de maiorias amplas.
O ponto mais delicado dessa tese é o crescimento do bloco identificado como mais radical. Se o Centrão de fato perder espaço para um bloco maior e mais disposto a embates diretos — inclusive institucionais, como ataques ao Judiciário —, o equilíbrio de poder dentro do Congresso muda de natureza: deixa de ser uma disputa por recursos e passa a ser uma disputa por regras do jogo.
Um Congresso sem Centrão para comprar pode parecer, à primeira vista, mais íntegro — mas se a alternativa a um bloco fisiológico é um bloco disposto a atropelar instituição, a troca não é necessariamente uma vitória da democracia.



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