O governo descobriu a fórmula da reta final: dar o que o bolso sente
Na manhã de sexta-feira (16/10), o presidente Lula assinou a promulgação do fim da escala 6×1 em cerimônia solene no Congresso — e não perdeu a oportunidade de anunciar, horas depois, duas novidades: a proposta de uma escala 4×3 (três dias de descanso) e passagem gratuita de ônibus aos finais de semana em todo o país, bancada por emendas parlamentares. A sequência não foi acaso: a dez dias do segundo turno, com as pesquisas mostrando empate técnico (50% a 50% na Poder Data, depois de 53 a 47 duas semanas atrás), o Planalto está concentrando no calendário eleitoral justamente as medidas que o eleitor sente no bolso e na rotina, não nos discursos.
No programa Rolê desta sexta, a vereadora carioca Tatiana Roque (PSB) trouxe um dado que ajuda a entender essa aposta: a maior abstenção no primeiro turno veio de mulheres entre 18 e 29 anos e de mulheres acima de 70 — exatamente o público que mais identifica o nome de Lula com política social concreta (SUS, educação, Bolsa Família). Dar visibilidade a conquistas como o fim da 6×1 e o passe livre não é só propaganda: é tentar reverter abstenção onde ela mais pesa.
O programa também discutiu o momento mais espinhoso da entrevista de Lula ao Jornal Nacional na véspera: a sinalização pessoal favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. Os comentaristas do Rolê foram unânimes em ler isso como manobra eleitoral, não mudança de convicção — Lula nunca se comprometeu a votar ou aprovar a medida, só a personalizar o discurso pra não entregar de bandeja o tema pro adversário. A ressalva importante, feita em cima da mesa: menos de 3% das medidas socioeducativas no Brasil hoje envolvem crime hediondo, então o debate é mais sobre narrativa do que sobre números reais de segurança pública.
Outro momento forte foi a entrevista com Léo Suricate, deputado estadual eleito pelo PSOL no Ceará e dono de uma página de humor que nasceu no Facebook em 2012. Suricate detalhou a proposta de uma Operação Robin Hood — usar recursos apreendidos do crime organizado pra financiar políticas públicas nas periferias mais afetadas pela violência — e criticou o adversário André Fernandes por emendas parlamentares concentradas fora da capital, enquanto ele mesmo cultiva uma imagem de outsider apesar de vir de família com histórico político na região.
Fechando o programa, a produção debateu a estratégia dos atos deste domingo pró-Lula em São Paulo: em vez de concentrar tudo num só ato central — o que aumentaria o risco de confronto com manifestações bolsonaristas na mesma linha de metrô —, a aposta é descentralizar, com ato de rap e hip-hop na Zona Norte, evento nas periferias da Zona Leste, e mobilização própria programada para o Rio de Janeiro e Brasília.
Separe as medidas do discurso e sobra pouco: quando o governo some da bolha pra falar de maioridade penal, é cálculo eleitoral. Quando anuncia nova escala de trabalho e ônibus de graça dez dias antes da votação, também é. A diferença é que só uma dessas coisas o eleitor carrega no bolso na segunda de manhã.



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