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A primavera estudantil que pegou o Brasil de surpresa

A primavera estudantil que pegou o Brasil de surpresa

Tem um fenômeno acontecendo nas ruas que não estava no roteiro de ninguém. Nos últimos dias, estudantes tomaram praças em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife, sem convocação central, sem grife de partido estampada na faixa. Só gente nova, cansada de ouvir que o risco do bolsonarismo é coisa do passado.

No Rolê desta quinta, o ex-governador da Paraíba e deputado federal eleito Ricardo Coutinho deu nome a isso: «primavera estudantil». A tese dele é simples e, por isso mesmo, incômoda: existe um ciclo na política brasileira em que a juventude assume uma responsabilidade que os adultos, momentaneamente acomodados, preferem adiar. Foi assim em 2013, foi assim nas diretas, e seria ingênuo achar que não aconteceria de novo.

O detalhe que separa esse momento de uma simples repetição histórica é o motivo do incômodo. Não é uma pauta específica, é uma ameaça concreta ao que já existe: aposentadoria vinculada ao salário mínimo, SUS, universidade pública. Gente que nasceu depois de 2016 e nunca viveu um corte de verba federal em bolsa de pesquisa está, pela primeira vez, calculando o que perderia se perdesse.

Tem também um componente de linguagem. Os operários da construção civil que pararam em Fortaleza e os estudantes que lotaram a Avenida Paulista não falam a mesma língua institucional dos atos de partido. É cartaz feito em casa, é vídeo vertical, é adesivo. É um movimento que nasce já pensando em viralizar, porque sabe que a batalha real está no feed, não só na rua.

Isso cria um problema de leitura para quem só olha pesquisa eleitoral tradicional. Mobilização de rua não aparece direito em número de intenção de voto — aparece depois, no efeito cascata sobre quem ainda estava em cima do muro. E é exatamente aí que mora a aposta do campo governista: transformar a imagem de multidão em pressão silenciosa sobre o indeciso, o tipo de eleitor que não vai a ato nenhum mas vê o vídeo passar três vezes antes de decidir o voto.

Toda primavera política dura pouco e corre o risco de esfriar antes da urna. A pergunta que decide essa eleição não é se o movimento existe — é se ele sobrevive, com a mesma intensidade, até o dia da votação.

Comentário e análise política do Rolê — transformação em texto, com ângulo autoral, do que é discutido nas lives diárias do programa.

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