Por que o Nordeste entregou menos votos — e a aposta nas redes contra o algoritmo
No primeiro turno, o Nordeste entregou cerca de 2 milhões de votos a mais para Lula do que no ciclo eleitoral anterior — mas, segundo Ricardo Coutinho, ainda abaixo do patamar histórico da região, que costuma girar entre 67% e 68% dos votos válidos. A pergunta natural é: por que uma região que é base consolidada do campo governista cresceu menos do que o esperado?
A resposta que Coutinho deu no Rolê é incômoda justamente porque não aponta para dentro da campanha, aponta para fora dela: segundo ele, houve «interferência externa dos Estados Unidos» por meio das big techs, favorecendo o campo bolsonarista através da forma como o conteúdo é distribuído nas redes. É uma acusação grave, do tipo que precisa vir com prova para valer como fato — e que, por enquanto, segue no campo da leitura política, não da investigação formal.
O que dá sustentação parcial à tese não é a acusação em si, mas um efeito que qualquer usuário de rede social já sentiu na pele: a curadoria de algoritmo não é neutra, nunca foi, e favorece o conteúdo que gera mais engajamento — o que, em período eleitoral polarizado, tende a empurrar o usuário para câmaras de eco cada vez mais reforçadas. Coutinho relatou ter passado a receber, pessoalmente, conteúdo que nunca curtiu nem buscou, numa linha editorial oposta à sua. Se isso é overexposure deliberado ou só o funcionamento padrão de uma plataforma otimizada para retenção, é uma pergunta que vale mais do que a resposta pronta que ele deu.
O diagnóstico, de qualquer forma, define a prescrição: a campanha reconhece que a comunicação tradicional falhou em competir nesse terreno, e aposta explicitamente em intensificar a presença do próprio Lula nas redes — o que já vem acontecendo, com crescimento de visualizações nos últimos dias. A lógica é simples: se o algoritmo recompensa engajamento genuíno, a resposta não é brigar com a plataforma, é produzir o tipo de conteúdo que ela naturalmente amplifica.
Culpar o algoritmo é sempre mais confortável do que revisar a própria estratégia de comunicação. A pergunta que fica é se a virada de chave veio tarde demais ou bem na hora certa para o segundo turno.



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